sábado, abril 02, 2005

O que diferencia as pessoas? A forma de pensar.

Engraçado como certas coisas nos diferenciam de outras pessoas por uma questão de postura. Um fato acontecido já a um tempo me fez pensar sobre isso, quando hoje minha mente viajou e me fez lembrar disso. E me deu vontade de escrever esse texto.

Certa vez, eu estava fazendo umas das coisas que mais gosto: tomar cerveja na praia, lendo um livro. Eu, chegando do trabalho pela tarde, volta de umas 15:00, e tendo a tarde livre, chego a uma barraca de praia de um amigo meu, e começo meu ritual: tirar os sapatos, desabotar a calça (com a camisa por fora, pra cobrir, e não tornar meu momento de conforto um atentado ao pudor...), pasta na cadeira ao lado, acendo um cigarro, peço uma cerveja, abro a pasta, pego o livro, e começo a ler. Ler descompromissadamente, meio que desatento com o que acontece ao redor, pois estou num lugar que considero seguro.

A Barraca de Bomba (nome como eu chamo a barraca de praia, em homenagem ao dono, Josevaldo, que é forte mesmo sem ir pra academia, por isso o apelido) fica num trecho da praia de Ondina emparelhada com diversas outras, em uma Laje de concreto feita na praia logo abaixo da balaustrada. A barraca, por sua vez, tem sombreiros na laje e abaixo dela, na areia da praia.

Eu estava acima, na laje, como disse, lendo descompromissadamente, quando esquadrinho toda a praia para ver o movimento. E nesse momento eu vi.

Vi uma senhora com uma criança no colo, um sobreiro de distância do meu, mas ela estava na areia. Essa seria uma cena corriqueira em plena quinta-feira de tarde não fosse por um fato. A criança apresentava desformidades pelo corpo. Era diminuta, mesmo para uma criança de pouca idade, com forma esquálida, e rugas pelo corpo todo, como se tivesse uma única marca de queimadura que teria consumido seu corpo inteiro. Os dedos da mão eram unidos, e ele não tirava do olho, como se estivesse coçando o mesmo. Mas depois eu vi, a criança não tinha olho nas órbitas. Os dedos ficavam enfiados no buraco do olho. Mas, não fosse tudo isso, tinha outro detalhe que partia meu coração: a criança chorava copiosamente, sem lágrimas, mas com um grito de criança que sente dor. E fiquei me perguntando, com uma curiosidade até normal para aquele momento, se essa dor seria crônica ou não.
Nesse momento, olhei e vi que a praia seria, tanto para a mãe quanto para a criança, um prazer único. Algo que normalmente ambos não poderiam estar se dando ao luxo de fazer sempre. Pensei no desprendimento que uma mãe deve praticar para ser mãe nessas circunstâncias (sim, é mais fácil ser mãe de uma criança saudável). Pensei na dor, se crônica. Pensei como seria uma criança estar naquela situação, além de ser deformada, cega, e sentindo dor. Pensava tudo isso e via a forma da mãe fazer carinho nele, e de como ela esfregava sua bochecha na cabecinha calva do menino. Pensei em coisas que não saberia descrever, mas isso tudo foi interrompido pelo que aconteceu ao lado.

Casal formado de piriguete+putinho, chegam à barraca e pedem uma cerveja, assim como eu. Mas, ao verem a cena da mãe com o filho, a piriguete grita! E não satisfeita com o gritinho típico que deu, levantou, puxando o namorado pelo braço, dizendo: - Vem, bem! Vamos pra outra barraca do lado!

Acredito que aquela cena era algo que o casal não estava disposta a ver naquele momento, não importando se as pessoas que eles repudiavam ouviram o protesto insoso da aspirante a puta! Não importando se ouvir insultos de aculturados, apedeutas e ignóbeis como ela seria até uma rotina para pessoas desprendidas, que se dão o prazer de ir à praia curtir um sol na praia.

E eu acho incríve como uma simples forma de encarar as coisas, de ver fatos, diferencia as pessoas de maneira tão profunda. Onde existe repulsa, pode haver compaixão? E no lugar da compaixão, não poderíamos apenas nos projetar e agradecer pela nossa saúde à Deus? E você, caro amigo, que leu a descrição da criança, logo acima, o que pensou? O que passou pela sua cabeça?

Pensem nisso!
Texto dedicado a todas as mães de verdade!

8 Comentários:

Às 2:44 AM , Anonymous Anônimo disse...

Marlon Marlon, ou simplesmente Jesus. Cara, vc me surpreende cada ve mais. É a primeira vez q visito seu bloge dou de cara com um atodesumano desses...vc retratou mto bem. Espero q tenha surtido efeito em outras pessoas assim com surtiu em mim.
Acho q vu visitar esse aki mais vezes, acho q tenho mtoo q aprender...
beijos

 
Às 11:18 AM , Anonymous Anônimo disse...

Jesus!!A espera valeu a pena viu?Um texto, pra variar, lindo!!Concordo com Maira quando ela disse que a gente tem muito a aprender ao visitar seu blog, por isso suplico tanto que você atualize. Bom, sobre o que aconteceu nesse dia na praia, realmente é inacreditável. Acho que o normal seria uma pessoa se sensibilizar. Parar e pensar na própria vida e ver o quanto na maioria das vezes somos injustos de reclamar o tempo todo. Mas infelizmente eu chego novamente a constatação que cada pessoa pensa de uma forma... É isso Jesus!!Beijos procê!!
Gabraga

 
Às 2:54 PM , Anonymous Anônimo disse...

Como diz o ditado: quem espera sempre alcança!sabia q toda essa demora pra atualizar n ia influenciar negativamente no texto. Pelo contrario, vc conseguiu falar muito bem à respeito da reaçao das pessoas diante de situaçoes como essas!O q me passou pela cabeça qdo li, é pensar como existem pessoas tao arrogantes e sem sentimento como essa menina! O q aconteceria, se ela se visse um dia nessa situaçao? Por outro lado, a situaçao dessa criaça nos faz perceber,'como é injusto a gente ficar sofrendo ou se predendo a coisas tao inuteis, enquanto tem gente que sofre por motivos muito mais grave, como o ex dessa criança e da mae dela.Amor, amei o texto mais uma vez, e vou ficando por aki! ja escrevi demais! bjinhos

 
Às 7:54 PM , Anonymous Anônimo disse...

Jesus, você quando resolve escrever sai de baixo que lá vem livro, mas que é sempre muito enriquecedor. Quando eu comecei a ler sua descrição ao chegar na praia fiquei imaginando e com certeza é sua cara. Jesus indo para a praia parece um intelectual que vai a praia mais a procura de um lugar sossegado e de uma imagem bonita do que por causa do mar e do sol rs rs rs. Poxa Jesus, que história mais chocante, sinceramente não imaginava o que iria me proporcionar seu post.
Pois é, mãe é mãe em qualquer situação e essa em especial merece mesmo um prêmio, porque você imagina, ao ler essa história que ela deve viver sua vida em função dessa criança, para mostra a ela a vida que ela não pode ver, que ela não pode sentir e essa mãe deve sofrer muito, porque não podemos renegar o que a vida nos dar, mas qual a mãe que não quer ver seu filho crescer com saúde, com perfeição? E essa pessoa iluminada que deve ser essa mãe ainda tem que driblar os obstáculos que a vida lhe proporciona como essa cena de preconceito, porque o que essa moça fez geralmente se relaciona com a ignorância, vista como a ausência de conhecimento acerca de determinado assunto.
E você Jesus ao contrário soube enfrentar o “novo”, aquilo que ainda se desconhece, com o objetivo de melhor se relacionar com o futuro. Por isso, é fundamental que as pessoas se encontrem desarmadas de idéias preconcebidas, despidas de preconceitos que em nada favorecem esse sempre difícil relacionamento. Beijão!!

 
Às 12:17 AM , Anonymous Anônimo disse...

oi Marlon, além de escrever muito bem, um grande leitor é tb um bom escritor, vc tem sentimentos muito límpidos e tb analisa certas situações numa forma parecida com o q eu sempre faço... não preciso dizer q gostei do que li não é mesmo?

 
Às 10:22 AM , Anonymous Anônimo disse...

Parabéns! mais uma vez um belo texto! Vc devia ser jornalista cara!!! Rs Mas acada vez mais q conheço o ser humano me surpreendo com as coisas q ele é capaz de fazer... Mas a mente humana pensa o q quer não é isso? Cabe a nós fazer a nossa parte! Bjos Marlon, e saudades!
Bárbara

 
Às 1:26 PM , Anonymous Anônimo disse...

Só posso confirmar que a espera pela atualização valeu apena meu caro Marlon.Vc conseguiu nos fazer refletir por um bom tempo,acredito inclusive que minha tarde não será mais a mesma hj.Como estudante de português e literatura posso afirmar e te parabenizar pelas minúncias de detalhes.Vc com certeza fez a todos que te "leram" se sentir naquela praia,naquele sol e espero que tenha conseguido o mais importante,que por acaso não é somente sentir raiva da puta e do viado,mas espero que todos tenham "entrado" por um instante na pele da criança e da mãe.E depois só nos resta uma coisa a fazer:agradecer a Deus pela nossa saúde.E nunca,nunca mesmo reagir de tal forma nesta situação.Enfim um grande abraço e parabéns!!!
Cindi

 
Às 8:01 AM , Anonymous Anônimo disse...

Oi Jisus, achei mto interessante seu texto, não lindo. Na verdade ele me levou à reflexão de mtas coisas na vida, não somente da maneira como encaram uma criança deformada (até pq, ainda hei de encarar mtas pessoas com esses problemas em minha profissão) e sinto que mesmo depois de anos de fisioterapia, sempre vou me chocar com essas deformidades. Isso é algo que não dá p/ controlar. Mas, como vc disse, a reação das pessoas varia mto e o fator que é importante nesse comportamento, não tenho dúvidas, é a educação familiar. Tudo depende de como vc foi criado, como vc foi educado, e eu lembro bem que qdo pequena, deparei-me pela primeira vez com uma criança deficiente e minha mãe me disse q aquela criança tinha sofrido um acidente, por isso estava daquele jeito, mas que ela um dia ia ficar normal denovo, eu cheguei junto dessa criança e dei um beijo nela. Sem que ninguém esperasse e eu lembro bem, aquele beijo não foi de pena, mas de certeza que ela era igual a mim. Minha mãe fez com que eu pensasse assim, entende? É isso...esse seu texto me fez relembrar de mtas outras coisas, mas não dá pra relatar td aqui! Sem vc saber, esse é um dos motivos que escolhi ser Fisioterapeuta. Beijos enoooormes!!! Adorei passar por aqui! Juju

 

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