O que diferencia as pessoas? A forma de pensar.

Engraçado como certas coisas nos diferenciam de outras pessoas por uma questão de postura. Um fato acontecido já a um tempo me fez pensar sobre isso, quando hoje minha mente viajou e me fez lembrar disso. E me deu vontade de escrever esse texto.
Certa vez, eu estava fazendo umas das coisas que mais gosto: tomar cerveja na praia, lendo um livro. Eu, chegando do trabalho pela tarde, volta de umas 15:00, e tendo a tarde livre, chego a uma barraca de praia de um amigo meu, e começo meu ritual: tirar os sapatos, desabotar a calça (com a camisa por fora, pra cobrir, e não tornar meu momento de conforto um atentado ao pudor...), pasta na cadeira ao lado, acendo um cigarro, peço uma cerveja, abro a pasta, pego o livro, e começo a ler. Ler descompromissadamente, meio que desatento com o que acontece ao redor, pois estou num lugar que considero seguro.
A Barraca de Bomba (nome como eu chamo a barraca de praia, em homenagem ao dono, Josevaldo, que é forte mesmo sem ir pra academia, por isso o apelido) fica num trecho da praia de Ondina emparelhada com diversas outras, em uma Laje de concreto feita na praia logo abaixo da balaustrada. A barraca, por sua vez, tem sombreiros na laje e abaixo dela, na areia da praia.
Eu estava acima, na laje, como disse, lendo descompromissadamente, quando esquadrinho toda a praia para ver o movimento. E nesse momento eu vi.
Vi uma senhora com uma criança no colo, um sobreiro de distância do meu, mas ela estava na areia. Essa seria uma cena corriqueira em plena quinta-feira de tarde não fosse por um fato. A criança apresentava desformidades pelo corpo. Era diminuta, mesmo para uma criança de pouca idade, com forma esquálida, e rugas pelo corpo todo, como se tivesse uma única marca de queimadura que teria consumido seu corpo inteiro. Os dedos da mão eram unidos, e ele não tirava do olho, como se estivesse coçando o mesmo. Mas depois eu vi, a criança não tinha olho nas órbitas. Os dedos ficavam enfiados no buraco do olho. Mas, não fosse tudo isso, tinha outro detalhe que partia meu coração: a criança chorava copiosamente, sem lágrimas, mas com um grito de criança que sente dor. E fiquei me perguntando, com uma curiosidade até normal para aquele momento, se essa dor seria crônica ou não.
Nesse momento, olhei e vi que a praia seria, tanto para a mãe quanto para a criança, um prazer único. Algo que normalmente ambos não poderiam estar se dando ao luxo de fazer sempre. Pensei no desprendimento que uma mãe deve praticar para ser mãe nessas circunstâncias (sim, é mais fácil ser mãe de uma criança saudável). Pensei na dor, se crônica. Pensei como seria uma criança estar naquela situação, além de ser deformada, cega, e sentindo dor. Pensava tudo isso e via a forma da mãe fazer carinho nele, e de como ela esfregava sua bochecha na cabecinha calva do menino. Pensei em coisas que não saberia descrever, mas isso tudo foi interrompido pelo que aconteceu ao lado.
Casal formado de piriguete+putinho, chegam à barraca e pedem uma cerveja, assim como eu. Mas, ao verem a cena da mãe com o filho, a piriguete grita! E não satisfeita com o gritinho típico que deu, levantou, puxando o namorado pelo braço, dizendo: - Vem, bem! Vamos pra outra barraca do lado!
Acredito que aquela cena era algo que o casal não estava disposta a ver naquele momento, não importando se as pessoas que eles repudiavam ouviram o protesto insoso da aspirante a puta! Não importando se ouvir insultos de aculturados, apedeutas e ignóbeis como ela seria até uma rotina para pessoas desprendidas, que se dão o prazer de ir à praia curtir um sol na praia.
E eu acho incríve como uma simples forma de encarar as coisas, de ver fatos, diferencia as pessoas de maneira tão profunda. Onde existe repulsa, pode haver compaixão? E no lugar da compaixão, não poderíamos apenas nos projetar e agradecer pela nossa saúde à Deus? E você, caro amigo, que leu a descrição da criança, logo acima, o que pensou? O que passou pela sua cabeça?
Pensem nisso!
Texto dedicado a todas as mães de verdade!

